Se você olhar com atenção a fatura de luz de um conhecido que aderiu a algum programa de energia solar por assinatura, vai encontrar uma linha que talvez nunca tenha visto antes: "Energia injetada – créditos", com um valor negativo abatendo do total a pagar. Esse é o mecanismo central da geração distribuída no Brasil — e é regulamentado, contabilizado e operado pela própria distribuidora.

Vamos por partes. Crédito de energia, no contexto regulatório brasileiro, não é dinheiro. É energia já gerada mas ainda não consumida, contabilizada em kWh, que fica disponível para abater consumo futuro do mesmo titular ou de outros titulares cadastrados na mesma usina.

De onde vêm esses créditos

A regulamentação prevê duas fontes principais para a geração de créditos:

Nos dois casos, o mecanismo é o mesmo da perspectiva da distribuidora: a CEMIG recebe a energia injetada, contabiliza em kWh, aplica o crédito na fatura de quem tem direito e cobra apenas o saldo. Esse é o sistema de compensação de energia elétrica, conhecido tecnicamente como net metering.

O sistema brasileiro de compensação é um dos mais maduros do mundo em geração distribuída. Quando o crédito chega na fatura, ele já passou por validação técnica da distribuidora, conferência da ANEEL e está blindado por contrato regulatório. — Análise Setorial Energia, ABRADEE 2025

Onde encontrar isso na sua fatura

Na conta da CEMIG, a linha de crédito de energia geralmente aparece no detalhamento da fatura, abaixo do consumo principal, identificada como "Energia compensada GD" ou "Energia injetada créditos". O valor é negativo — ou seja, abate do total a pagar.

Para quem ainda não tem créditos, essa linha não existe na fatura. Para quem aderiu a um programa de geração compartilhada, ela passa a aparecer a partir do primeiro ciclo de medição após o cadastro ser efetivado pela distribuidora — em geral, entre 30 e 45 dias após a assinatura do contrato com a comercializadora.

Quanto crédito uma família média recebe

Depende da contratação. O modelo padrão de geração compartilhada para uso residencial é dimensionado para cobrir entre 90% e 95% do consumo médio do cliente — não 100%, porque existe sempre uma cobrança mínima de disponibilidade da distribuidora (a chamada "taxa mínima") que não pode ser zerada por crédito.

O resultado prático, para o bolso do cliente, é o seguinte:

Cálculo médio CEMIG · 2026

Conta antes: R$ 580/mês (consumo típico de uma família de quatro pessoas em apartamento de classe média).
Crédito aplicado pela CEMIG: -R$ 522 (abatimento na fatura).
Pago à comercializadora: R$ 406 (custo dos créditos no contrato de assinatura).
Total efetivo desembolsado: R$ 464.
Economia mensal: R$ 116 — ou 20% sobre o valor original.

Esse desconto efetivo de 20% é a média do mercado em Minas Gerais em 2026, segundo levantamento da ABGD. Pode ser maior ou menor a depender da empresa, do contrato e do perfil de consumo, mas o número se repete com bastante consistência.

O que essa economia significa em escala

Para uma família que paga R$ 580 mensais à CEMIG, a economia de R$ 116/mês equivale a R$ 1.392 ao ano. Em cinco anos, sem nenhuma ação adicional do consumidor, são R$ 6.960 — mais ou menos o preço de uma viagem internacional em casal, ou metade de uma reforma de cozinha de porte médio em Belo Horizonte.

O ponto que costuma surpreender quem analisa esses números pela primeira vez é que essa economia não exige investimento inicial. Não é o "payback de 4 anos" do modelo de painel no telhado, em que o consumidor paga adiantado para depois economizar. É economia que começa no primeiro mês depois da ativação do cadastro, sem desembolso prévio, sem obra e sem fidelidade longa.

Como saber se a sua unidade pode receber

A regra é simples: se a sua fatura mensal vem com a logomarca da CEMIG no topo, você está na área de concessão e pode ser cadastrado em qualquer programa de geração compartilhada que opere no Estado. Não há restrição por tipo de imóvel, por bairro ou por região dentro de Minas Gerais — basta a unidade ser atendida pela CEMIG.

A única exigência adicional, prevista em contrato, costuma ser:

Atendidos esses pontos, o cadastro é processado pela comercializadora e enviado à CEMIG. A partir do ciclo seguinte de medição, a linha de "crédito de energia" começa a aparecer na fatura, abatendo automaticamente o consumo do mês.

É um mecanismo silencioso. Não precisa de monitoramento, não precisa de manutenção, não precisa de aplicativo. Ele simplesmente acontece toda vez que a fatura chega — e, durante todo o período do contrato, esse crédito vai estar lá, abatendo a tarifa cheia da CEMIG e devolvendo, para o orçamento doméstico, parte do que a conta de luz costumava engolir.